Bolsonaristas têm recorrido a imagens de manifestações religiosas de matriz africana para associar apoiadores de Lula (PT) a supostas ameaças espirituais.
A influenciadora Bella Falconi é exemplo disso. Ela resgatou uma fala do pastor angolano Edivaldo Simão que vem circulando na internet sob ares proféticos. Ele prevê que “vai haver sangue no Brasil” tão logo Flávio Bolsonaro (PL) ganhe a eleição.
A declaração é justaposta a cenas de práticas da religiosidade afro-brasileira, como se estivessem sendo realizadas contra Flávio, que tem sua foto na miniatura de um caixão em chamas. A influenciadora comenta que “o Brasil está prestes a ser liberto de uma agenda e de uma ideologia demoníaca”, numa publicação com mais de 51,5 mil curtidas até a noite de sexta (23).
O movimento foi detectado por um monitoramento de perfis virtuais religiosos feito pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque.
Há mais vídeos usados para alimentar a intolerância religiosa contra adeptos dessas crenças. O principal foi gravado no Tambores pela Democracia, ato promovido na quinta (22), no Largo da Batata, na zona oeste de São Paulo.
Uma conta secundária de Nikolas Ferreira (PL-MG) no Instagram, com 6,2 milhões de seguidores, incluindo o perfil principal do deputado, compartilha o momento em que manifestantes cantam sobre “manter Bolsonaro amarrado num cipó” enquanto rodeiam velas acesas, recipientes e um prato. “A gente não ora o Pai-Nosso à toa”, escreveu na legenda, sugerindo um perigo espiritual naquele ritual.
Naor Pedroza, pastor na Videira, igreja com a qual Pablo Marçal tem vínculos, republicou a mesma filmagem e recomendou que seu quase meio milhão de seguidores não sejam ingênuos, pois na política “há uma dimensão espiritual que não deve ser ignorada”.
O pastor Eduardo Batista, acompanhado por 470 mil perfis na rede social, resgatou a mesma cena para dizer que “o inferno se levantou e não podemos recuar”. Engrossa a lista de influenciadores de pequeno, médio e grande porte que evocam uma guerra espiritual entre forças do bem, que teriam ao seu lado Flávio e os cristãos, e do mal, representado por Lula e religiões afro-brasileiras.
Segundo checagem publicada pelo Coletivo Bereia, que desmonta desinformações de cunho religioso, não há evidências de que os participantes tenham feito a ameaça atribuída a eles.
A cantiga adaptada pelos manifestantes vem da tradição da Jurema, religiosidade afro-indígena com origem nordestina, e não é um ritual para evocar morte ou doença do adversário político, mas “um pedido para conter a força de quem ameaça a mata e os povos tradicionais”, afirma o pai de santo David Dias.
Carolina Rocha, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião) e autora do livro “A Culpa é do Diabo: O que Li, Vivi e Senti nas Encruzilhadas do Racismo Religioso“, explica que uma coisa é uma comunidade invocar proteção espiritual, outra completamente diferente é pedir a morte de uma pessoa.
“É importante compreender que, nas tradições espirituais afro-brasileiras e indígenas, expressões como amarrar inimigos, dar um nó ou afastar adversários podem ter sentidos rituais de proteção, contenção e banimento de forças consideradas ameaçadoras, sem representar necessariamente um desejo literal de violência ou morte.”
O portal evangélico Pleno News, por sua vez, destacou uma fala de Sidnei Nogueira, babalorixá e doutor em semiótica pela USP, no ato do Largo da Batata. Ele diz que a pessoa que vota em Flávio “deixou de ser macumbeira” e “está produzindo contra o axé”. Um “terreiro bolsonarista”, segundo ele, “não pode sequer existir”, pois seria uma contradição em termos.
A publicação nas redes sociais foi comentada por umbandistas que diziam votar em Flávio, mas também por quem ironizou o conteúdo. “Eu te entendo, o mesmo acontece com os crentes que votam no Lula”, disse uma seguidora.
O uso de símbolos e práticas de religiões de matriz africana para atacar Lula e aliados é reincidente. Em 2022, a então primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF), agora eleita senadora, compartilhou um vídeo de Lula recebendo um banho de pipoca, ritual associado à umbanda. Reclamou então: “Isso pode, né! Eu falar de Deus, não”.
A gravação havia sido reproduzida inicialmente pela vereadora Sonaira Fernandes (PL-SP). “Lula já entregou sua alma para vencer essa eleição”, assim ela embalou a postagem na época. “Não lutamos contra a carne nem o sangue, mas contra os principados e potestades das trevas.”
Em 2024, circulou uma montagem falsa que atribuía à Folha a fake news de que a primeira-dama Janja teria encomendado um ritual de candomblé para conter a alta do dólar.


