Centenas de caranguejos fogem quando pisamos na praia. Ao descarregarmos o barco, ouvimos apenas as ondas na areia branca e o farfalhar da densa vegetação rasteira que, como uma parede verde, esconde o coração da ilha.
Coiba, no Pacífico panamenho, é um paraíso natural isolado e virgem.
Mas este arquipélago de ilhotas de águas cristalinas, localizado a cerca de 25 quilômetros a sudoeste da costa de Veraguas, na costa oeste do Panamá, tem uma história de violência e horror.
Durante 85 anos funcionou como uma temida prisão a céu aberto onde foram registrados tortura, trabalhos forçados e um massacre brutal.
Criminosos perigosos e, durante a ditadura panamenha (1968-1989), opositores políticos foram detidos ali.
Após o seu encerramento, em 2004, a ilha foi totalmente dedicada a ser uma reserva natural para preservar essa memória, o que valeu à Unesco a sua declaração de Patrimônio Mundial.
As décadas em que foi uma prisão ajudaram a manter os seus ecossistemas e biodiversidade quase intocados pela intervenção humana.
Até agora.
Em junho deste ano, após uma fuga massiva de uma grande prisão na capital, o Panamá enviou 29 presos para uma base aeronaval localizada na ilha.
Depois, em agosto, mais três pessoas foram transferidas.
“A transferência para Coiba foi realizada de acordo com as necessidades de segurança nacional. Não se trata de uma discussão sobre uma reserva, mas sobre a segurança dos panamenhos”, disse na época o presidente José Raúl Mulino, cujo governo não respondeu aos pedidos de informação da BBC Mundo para este artigo.
Sua intenção, alegou o presidente, era desferir um golpe contra as estruturas criminosas que operam dentro do sistema prisional.
No entanto, a medida está gerando controvérsia no país e preocupando cientistas e líderes ambientais.
Coiba é o maior parque marinho da América Central e, juntamente com sua área terrestre, abrange 270.125 hectares, tornando-se um gigantesco laboratório a céu aberto.
Foi isso que constatamos durante nossa visita, em um fim de semana quente e úmido de maio, quando os planos do governo panamenho ainda eram desconhecidos.
Viajamos com um grupo de pesquisadores e um guarda-parque que, poucos anos antes, havia sido preso exatamente no mesmo local que mais tarde passou a proteger.
“Mali Mali”
“O dia do assassinato foi 29 de novembro de 1986. Eu tinha 23 anos”, me conta Narciso “Mali Mali” Bastidas, hoje com 63 anos. Ele é originário de Guna Yala, uma região indígena na costa leste do Caribe panamenho.
Conversamos e passamos a noite com ele na estação científica do AIP em Coiba, um conjunto de cabanas móveis de frente para a praia, cercado pela selva e localizado no nordeste da maior ilha do arquipélago.
Segundo uma decisão judicial, Mali, que agora é assistente de pesquisa e também guarda-parques do Sistema Nacional de Áreas Protegidas do Panamá, foi condenado pelo assassinato do dono de um restaurante onde trabalhava.
“Me prenderam como mandante. Dois anos depois, me transferiram para Coiba”, continua ele.
Lá, cumpriu uma pena de 10 anos. Ele insiste em sua inocência.
“Nos anos 80, o Panamá era governado pelos militares, pela bota. [As autoridades] me prenderam e, me espancando, me obrigaram a assinar”, conta ele.
Ao contrário de outros condenados, que foram transportados por mar, Mali chegou a Coiba de avião. Do alto, ele se lembra, observou os campos onde eventualmente trabalharia.
“Mesmo assim, achei lindo”, diz ele.
A colônia penal foi fundada em 1919, durante a presidência de Belisario Porras, com a intenção de ser “autossustentável”. Os prisioneiros, sem receber salário, dedicavam longos dias, desde bem cedo pela manhã, ao trabalho em fazendas de gado, plantando e colhendo o que consumiam.
Nesse sistema, a tarefa de Mali era entrar na selva e desmatar. “Nos chamavam de cães de guerra, nós, homens armados com facões”, lembra ele.
Embora houvesse uma prisão de concreto, a maioria dos detentos vivia em acampamentos espalhados pela ilha principal, construídos por eles mesmos com galhos, folhas de palmeira e materiais encontrados na região.
Ao longo da história de Coiba, existiram mais de 20 assentamentos que ocupavam 20% do território da ilha. O restante permaneceu intocado, de acordo com pesquisas científicas nas quais o mesmo guarda-parque participou.
“Graças à prisão, a ilha permaneceu como está”, diz ele.
Isso não o impede de reconhecer os maus-tratos sofridos pelos prisioneiros, que inclusive deram origem ao seu apelido.
“Quando cheguei, eu era meio gordinho. Um sargento me viu e disse: ‘Não vou te matar, mas vou te fazer definhar lentamente'”, conta.
E acrescenta: “‘Mali Mali’, na língua guna, significa magro, ossudo.”
O momento mais sombrio
Desde a sua criação como colônia penal, Coiba foi assolada por conflitos entre detentos e acusações de violência por parte dos guardas, disse Ezer Vierba, especialista em História da América Latina da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, à BBC Mundo.
Durante os 21 anos da ditadura panamenha, quando Omar Torrijos e, após sua morte, Manuel Noriega estiveram no poder, os oficiais militares que administravam a prisão “não respeitavam nenhum conceito de direitos humanos”, afirma ele.
“Estamos falando de punições que equivaliam à tortura”, declara.
No relatório da Comissão da Verdade do Panamá, publicado em 2002, depoimentos de ex-prisioneiros descrevem trabalho excessivo, “espancamentos brutais”, alimentação insuficiente e falta de assistência médica.
Mali testemunhou e vivenciou isso em primeira mão muitas vezes. “Se estivéssemos limpando a colheita de milho e alguém comesse um pouco, isso era um pecado. Se perguntassem quem era e todos ficássemos em silêncio, levaríamos um banho de mangueira no traseiro”, conta o guarda-parque.
Às vezes, a severidade da punição dependia da gravidade da ofensa e, outras vezes, do humor dos guardas.
“Durante o período militarista, a polícia mandava você subir em uma palmeira e disparava rajadas de tiros para que você soltasse e caísse. Se você tentasse escapar, eles o amarravam ou algemavam a uma árvore para que o chitra (um inseto cuja picada causa inchaço) pudesse se banquetear com você”, continua ele.
Embora não haja números oficiais, “muitas pessoas” morreram em Coiba, afirma Flavio Méndez, advogado e supervisor de operações científicas do Centro de Pesquisa Histórica e Antropológica do Panamá.
Não apenas por causa das punições, mas também porque “é um ambiente natural muito perigoso, onde existem animais venenosos”.
Além disso, as rivalidades entre gangues frequentemente persistiam.
Ao contrário de outras prisões panamenhas, a colônia penal não tinha grades e os detentos tinham liberdade de movimento.
Um dos momentos mais violentos da história de Coiba foi justamente o conflito entre dois grupos rivais em 1998, durante uma tentativa de fuga de quatro prisioneiros.
“Os que tentaram fugir estavam no sul da ilha. Mas Coiba tem correntes marítimas muito fortes que vêm das Ilhas Galápagos. O mar, em vez de levá-los para o continente, os levou para o norte, onde estavam seus inimigos”, lembra Méndez.
Os quatro foram vítimas de seus rivais, que os decapitaram. “Naquela época, eu era o condutor do barco de um dos comandantes da prisão. Fui com ele recolher os corpos”, conta Mali, relembrando a cena brutal.
O chamado massacre na prisão gerou grande indignação e contribuiu para acelerar seu fechamento, que finalmente ocorreu em 2004, explica o professor Vierba.
O historiador também esclarece que havia razões econômicas por trás disso: mesmo sob aquelas condições de abandono, financiar uma prisão em alto-mar era muito caro para o tesouro panamenho.
Parque Jurássico
Viajamos em um barco de pesca abarrotado de suprimentos, equipamentos de coleta de amostras e um enorme barril de gasolina que, devido ao balanço do mar, às vezes um de nós precisa segurar com uma perna.
Precisamos de combustível extra para explorar este arquipélago de mais de 30 ilhas e ilhotas, cuja ilha principal cobre uma área de 500 km².
Passamos por bandos de pássaros e, ocasionalmente, vislumbramos as barbatanas de golfinhos à distância. Entramos em um estuário para lançar uma enorme rede. Depois de algumas horas, aparecem tubarões-touro, que Mali e os pesquisadores retiram um a um.
Há um frenesi de vozes no barco. Os especialistas se movem agilmente para segurar, medir e coletar amostras de DNA, cortando um pequeno fragmento das barbatanas dessa espécie. O trabalho é dirigido pelo biólogo marinho Edgardo Díaz Ferguson.
Para ele, Coiba oferece uma oportunidade única de estudar ecossistemas intocados e entender como áreas naturais alteradas durante o período da prisão se recuperam por conta própria.
“São ilhas que permaneceram intocadas por 12 mil anos, tornando-as um Parque Jurássico moderno”, diz ele.
Para estudar a riqueza marinha de Coiba, os cientistas analisam a saúde de seus recifes e rastreiam as rotas migratórias de diversas espécies, como baleias e tubarões.
Díaz Ferguson explica que essa atividade permite compreender o papel da ilha como um “berçário natural” que regenera a vida marinha e abastece a pesca no continente.
Em terra, segundo a Unesco, seus ecossistemas apresentam um nível “excepcional” de espécies endêmicas e são um refúgio para animais que já não existem em grande parte do Panamá, como a águia-de-crista e a arara-vermelha.
Estar aqui, diz a bióloga marinha, “nos permite perceber o dano que causamos ao continente e como podemos reconstruir o que destruímos”.
Uma transferência digna de filme
Para anunciar a transferência de 29 prisioneiros considerados de “alto risco”, o governo panamenho divulgou um vídeo mostrando-os algemados, descalços e sem camisa, chegando ao que parece ser Coiba.
A decisão foi anunciada em 14 de junho, poucos dias depois da fuga de cerca de 195 detentos de La Joyita, uma prisão na província do Panamá.
Segundo as autoridades, os 29 estão detidos em uma base aérea naval localizada perto da antiga cadeia central da colônia penal.
Em agosto, a mídia panamenha noticiou que outras três pessoas, incluindo o ex-prefeito da cidade de Colón, Carlos Lee, foram transferidas para Coiba.
Nesse caso, os três foram acusados de crimes contra a administração pública, embora nenhum tenha sido condenado, de acordo com relatos locais.
Antes de tudo isso acontecer, durante nossa visita em maio, tentamos acessar a área para ver as ruínas remanescentes da penitenciária onde Mali ficou preso diversas vezes durante sua pena.
Mas os agentes do Serviço Aeronaval Nacional, que guardam esta área há anos, nos proibiram de entrar, bem como de filmar ou tirar fotografias. Não deram qualquer explicação.
Depois da transferência dos prisioneiros, tentamos novamente.
Perguntamos se a medida seria temporária ou permanente e se seria possível regressar à base para verificar o estado das instalações e dos detentos. Não obtivemos resposta.
Organizações como o Centro de Defesa Ambiental do Panamá expressaram sua preocupação com a presença de presos no parque nacional.
Em uma declaração assinada em junho por esta e dezenas de outras entidades, argumentou-se que a lei que protege a reserva não contempla a presença de detentos.
Além disso, segundo o comunicado à imprensa, a legislação estabelece que o território deve ser usado exclusivamente para administração do parque, pesquisa científica e ecoturismo.
De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, não há impacto ambiental em Coiba, pois não foi necessário construir novas infraestruturas para abrigar os presos.
Por outro lado, em agosto, um grupo de familiares dos presos levados para a reserva realizou um protesto em frente ao Ministério do Governo.
Eles exigiram ver seus entes queridos e que seus advogados também tivessem acesso para se comunicar com eles, algo garantido pelo direito ao devido processo legal.
No nosso caso, por exemplo, ir da Cidade do Panamá até Coiba levou seis horas de carro até a cidade mais próxima, Santa Catalina, seguidas de uma hora e 15 minutos de barco.
A transformação
Desde a chegada dos primeiros cientistas ao arquipélago no início da década de 1990, Mali tornou-se assistente de muitos deles.
Após cumprir sua pena, e até 2019, trabalhou como guarda-parque no próprio parque nacional.
Agora, ele protege outra área natural perto da capital panamenha.
“Quando comecei a trabalhar com os pesquisadores, com os médicos, tudo mudou. Não me sentia mais um presidiário, mas simplesmente mais um cidadão aqui”, diz Mali.
Pesquisadores como Edgardo Garrido Pérez, botânico que também faz parte da equipe do AIP Coiba, afirmam que a ajuda de Mali em seus projetos é essencial.
Juntos, eles se aventuram na selva para entender como se regeneram áreas que antes eram campos agrícolas e pastagens.
Em meio a cipós, troncos e folhas, vemos os dois medindo plantas, lambendo cascas de árvores e instalando equipamentos de gravação para capturar os pássaros que dispersam suas sementes.
“Quando tenho perguntas que outros historiadores não conseguem responder [sobre o impacto do trabalho dos detentos no terreno], Narciso [Mali] consegue. Ele foi protagonista desses eventos e também se dedicou a estudá-los”, diz Garrido Pérez.
O guarda-parques tem dois livros sobre Coiba: um já publicado e outro em andamento.
Mesmo assim, ele insiste: “Não sou especialista em nada”. Mas reconhece que sabe “um pouco de tudo, em geral, sobre biodiversidade”.
Por enquanto, a transferência dos prisioneiros não afeta o trabalho de pesquisa, dizem os cientistas.
Para Mali, a decisão é mais uma resposta a uma emergência de segurança do que um plano de longo prazo.
“Acho difícil acreditar que vão reabrir a ilha como colônia penal, porque teriam que construir novas instalações.”
Sua esperança é que Coiba seja preservada “para as futuras gerações”, porque “mudou completamente a sua vida”.
Devido à sua visão de mundo como indígena Guna, ele se sente parte da natureza, que considera uma “família”. “Se Coiba já foi meu sofrimento, hoje é minha gratidão.”
Com reportagem adicional de Óscar Sulbarán


