Encontro com Bob Dylan mostra como o papa quer aproximar a Igreja da cultura popular

Na última quarta-feira (4), enquanto os americanos ainda acompanhavam a apuração das eleições de meio de mandato, uma foto divulgada pelo Vaticano começou a circular nas redes. Ao lado de Leão XIV, no Palácio Apostólico, estava uma figura de capuz, vestida inteiramente de preto e uma gravata de bolinhas preta e branca. Era Bob Dylan, autor de Knockin’ on Heaven’s Door e Blowin’ in the Wind, e o figurino excêntrico do cantor de 85 anos rendeu até um texto na revista GQ.
No encontro, Dylan recebeu do papa um terço e deixou um exemplar autografado de Chronicles: Volume One, sua autobiografia. Primeiro papa nascido nos Estados Unidos, Leão XIV faz da aproximação com a cultura pop uma marca do pontificado. Já recebeu Robert De Niro e Patti Smith e citou Dylan e Tolkien em textos oficiais, no sentido oposto ao de Joseph Ratzinger, que em 1997 tentou impedir o mesmo Dylan de cantar para João Paulo II.
Da Capela Sistina ao Bernabéu
Os papas conversam com artistas há décadas, quase sempre sob os afrescos de Michelangelo. Bento XVI recebeu cerca de 250 artistas na Capela Sistina em novembro de 2009, num gesto que lembrava o encontro de Paulo VI com artistas em maio de 1964. Francisco também voltou à Sistina em 2023 com mais de 200 convidados.
A aproximação com a cultura de massa também já tinha acontecido nas paróquias. Em fevereiro de 1967, um retiro de estudantes da Universidade Duquesne, em Pittsburgh, deu origem à Renovação Carismática Católica, com louvor animado e oração em línguas. No Brasil, por exemplo, o movimento ganhou rosto no padre Marcelo Rossi, cujo disco Músicas para Louvar ao Senhor, de 1998, vendeu mais de 3 milhões de cópias em menos de seis meses. Estudos de sociologia da religião chamaram o fenômeno de “renovação popularizadora”, feita de padres cantores e missas-espetáculo. Apesar da origem na Igreja, o movimento nunca foi unânime.
Seja como for, com Leão XIV, a iniciativa passou a sair do próprio Palácio Apostólico, e a biografia do papa ajuda a explicar sua movimentação. Robert Prevost nasceu em Chicago e cresceu no auge de Hollywood. Antes de uma audiência com cineastas, o Vaticano divulgou os filmes preferidos dele, lista que inclui A Felicidade Não se Compra e A Noviça Rebelde, clássicos que sempre são lembrados por cinéfilos.
Recebeu De Niro em 7 de novembro de 2025. Oito dias depois, reuniu cerca de 50 atores e cineastas na Sala Clementina, entre eles Spike Lee, que lhe deu uma camisa dos Knicks com o número 14. No discurso, chamou o cinema de “arte popular no sentido mais nobre, destinada a todos e acessível a todos” e defendeu os filmes contra a lógica dos algoritmos, que tende a repetir apenas o que funciona.
Em junho, levou a tese a uma arena de Madri com cerca de 15 mil pessoas, num encontro com representantes da cultura, da economia e do esporte. Ali, disse que a Igreja não pode fechar os olhos à cultura e pediu que “a arte não seja destinada apenas às elites”. No dia seguinte, encontrou Bad Bunny no estádio Santiago Bernabéu, com a condição de que nenhuma foto fosse divulgada. Em julho, passou cerca de 40 minutos com Patti Smith. A cantora não é católica e se tornou presença frequente no Vaticano pela amizade com o padre Antonio Spadaro, jesuíta e subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação, que também organizou a visita de Dylan e é amigo do cineasta Martin Scorsese.
O cardeal que desconfiava de Dylan
Em 27 de setembro de 1997, Dylan cantou para cerca de 300 mil jovens no Congresso Eucarístico de Bolonha, com João Paulo II sentado ao lado do palco. No discurso que fez em seguida, o papa respondeu a Blowin’ in the Wind. Disse que a resposta estava, sim, no vento, desde que ele fosse entendido como o sopro do Espírito Santo, e acrescentou que há um só caminho para o homem, e é o caminho de Jesus Cristo. Ratzinger assistiu contrariado. Uma década depois, no livro de memórias sobre o antecessor, escreveu: “Havia motivo para ser cético, e eu era. Na verdade, em certo sentido ainda sou”. Disse ainda duvidar que tivesse sido certo deixar esse tipo de suposto “profeta” subir ao palco. Mesmo assim, reconheceu que João Paulo II conseguiu passar naquele dia uma mensagem espiritual que a indústria do entretenimento preferiu ignorar.
A imprensa chamava Dylan de profeta da contracultura havia décadas, e Ratzinger usou o termo com desdém. Para ele, o cantor trazia uma mensagem completamente diferente daquela que o papa levava aos jovens. Em O Espírito da Liturgia, publicado três anos depois de Bolonha, o cardeal deu forma à objeção. Descreveu o rock como expressão de paixões elementares e afirmou que, nos festivais, ele assume caráter de culto, “uma forma de culto, na verdade, em oposição ao culto cristão”. Lido à luz desse livro, o profeta é o pregador de uma religião concorrente, que oferece à multidão um êxtase coletivo no lugar da liturgia.
Dylan nunca aceitou o título. Em Chronicles, rejeita o rótulo de porta-voz de uma geração com a qual diz ter pouco em comum. Em 2004, numa entrevista à TV americana, foi mais curto: “Nunca quis ser profeta nem salvador. Elvis, talvez”. A desconfiança de Ratzinger tinha alguma base, já que Dylan vinha da conversão evangélica de 1979 e, nos anos 1980, aproximou-se de rabinos do movimento Chabad.
Leão XIV não esperou o cantor se definir. Em julho, no prefácio de Disarmata e disarmante, coletânea de seus textos sobre a paz publicada pela Libreria Editrice Vaticana, citou Go Away You Bomb, canção de protesto de 1963.
A conta dos críticos
Nem todo católico aplaude e concorda com essa aproximação. Quando Patti Smith foi recebida, o site InfoVaticana a apresentou como artista pró-aborto. Lembrou ainda que ela abriu um de seus discos mais conhecidos negando que Jesus tivesse morrido por seus pecados. Já Bad Bunny chegou a Madri com Baticano no repertório, faixa de 2023 que mistura imagens católicas com temas de liberação sexual. Para a ala tradicionalista, essas audiências emprestam a autoridade da Igreja a quem a contesta, em troca de fotografias que rendem cliques na internet.
Leão XIV respondeu a essa lógica antes de encontrar o porto-riquenho. No avião para Madri, admitiu que muitos jovens escolheriam ver Bad Bunny em vez do papa, e acrescentou: “Mas acho que também haverá gente para ver o papa. E isso também diz alguma coisa”. Em sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, de 15 de maio, dedicada à inteligência artificial, escreveu que a Igreja não pode se considerar estranha às forças que moldam a sociedade. No parágrafo 213, ele combate a tentação de achar que a tecnologia é grande demais para ser enfrentada. Para isso, recorre a Gandalf num trecho de O Retorno do Rei: não cabe a ninguém dominar todas as marés do mundo, e sim fazer o possível no tempo em que se vive, arrancando o mal dos campos que se conhece. Foi a primeira vez que Tolkien apareceu numa encíclica. “Está claro que isto foi escrito por um papa americano”, disse o historiador Robert Orsi, da Universidade Northwestern.
No meio disso tudo, Dylan saiu do palácio sem dar declarações, reforçando a postura enigmática que vem adotando nos últimos anos. Em 1997, ele disse à Newsweek que encontrava a religiosidade e a filosofia na música, e em nenhum outro lugar, e que não seguia rabinos, pregadores nem evangelistas. Vinte e cinco anos depois, numa entrevista ao Wall Street Journal, a resposta foi outra: “Sou uma pessoa religiosa. Leio muito as escrituras, medito e rezo, acendo velas na igreja. Acredito na danação e na salvação, assim como na predestinação. Os Cinco Livros de Moisés, as Epístolas Paulinas, a Invocação dos Santos, tudo isso”. Ao dar um terço a esse leitor da Torá que recorre aos santos, o sucessor de Ratzinger aposta que as canções de Dylan podem levar ouvintes a uma fé que o próprio cantor nunca aceitou nomear.
noticia por : Gazeta do Povo




