Na maioria das vezes, dá sim, como deu em maio de 1888. Mas essa é a mágica do ilusionismo semântico.
Isso sem contar que impor a redução da jornada à negociação coletiva num país onde a Reforma Trabalhista de 2017 passou um trator sobre a organização sindical, é, no mínimo, cinismo.
A escala 6×1 é um moedor de carne que ignora que o ser humano tem um limite biológico e emocional. O argumento de que “cada setor tem sua especificidade” é a senha para o imobilismo. Se dependêssemos da “especificidade de cada setor” e da “vontade das partes” para avançar em direitos humanos, ainda estaríamos discutindo se o trabalho escravo deve ser abolido gradualmente ou se as crianças podem ou não operar teares em jornadas de 14 horas.
Até porque uma das “partes” está cansada. A saúde mental não é uma variável macroeconômica negociável. O cansaço crônico, o distanciamento familiar e a depressão decorrentes da falta de um descanso digno não podem ser trocados por um vale-refeição um pouco maior ou um bônus de produtividade.
Quando parte do patronato diz que a mudança é autoritária, ele está, na verdade, lamentando a perda do controle sobre o tempo de vida do outro. Sim, o que está em jogo aqui é o direito ao tempo. O tempo para não fazer nada, para estudar, para brincar com os filhos ou simplesmente para não ser uma extensão da máquina ou do balcão.
A tentativa de empurrar isso para negociações fragmentadas é uma forma de garantir que, para os setores mais vulneráveis, o fim da 6×1 nunca chegue. Tipo Godot. É o eterno “agora não, quem sabe depois, vamos ver como a economia reage”. E, sob o mesmo argumento, o povaréu está esperando até hoje aquele bolo que fizeram crescer na ditadura ser dividido…
noticia por : UOL


