Quem é o presidente do TST, que se diz “vermelho” e recebeu a “dama do tráfico”

Há um juiz que chegou ao topo da carreira, usa o microfone para defender a causa “vermelha” e repudia com todas as forças o “capitalismo selvagem”. Mas com um detalhe: no fim de março, ele recebeu na conta um salário acima de R$ 140 mil.

Esse mesmo magistrado prega a transparência institucional, porém já abriu as portas de seu gabinete para uma mulher condenada por lavagem de dinheiro e envolvimento com o crime organizado. O apelido da visitante? “Dama do tráfico”.

O personagem em questão é o ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, de 65 anos, presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST).

Formado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1984, ele chegou a ingressar no mestrado em Direito Constitucional, mas não o concluiu. Também não possui doutorado.

Vieira de Mello foi nomeado para o TST em 2006, indicado por Lula depois de trabalhar com o governo do PT na elaboração de uma reforma sindical. Em agosto de 2025, alcançou a presidência eleito por unanimidade.

Seu sobrenome, porém, não é estranho nos tribunais: o magistrado mineiro é o representante de uma verdadeira dinastia da toga, que atua no Judiciário brasileiro há oito décadas.

A saída do armário

No último dia 1º, durante o encerramento do maior congresso de juízes trabalhistas do país, o presidente do TST virou notícia por abrir o jogo sobre sua posição política. “Nós, vermelhos, temos causa. Não temos interesse. Eles que se incomodem com a nossa causa”, afirmou.

A distinção entre “azuis e vermelhos” não é uma invenção dele. Segundo Vieira de Mello, foi criada pelo ministro Ives Gandra Martins Filho, colega de tribunal e um dos nomes mais à direita na magistratura trabalhista.

Os “azuis” são os ministros que tendem a decidir a favor do livre mercado — do direito do patrão de contratar, demitir e negociar com menos interferência do Estado. Já os “vermelhos” veem o juiz como um agente de justiça social, com papel direto na proteção do trabalhador (mesmo quando a lei deixa alguma margem de dúvida).

Vieira de Mello conta que foi “batizado” de vermelho pelos críticos. E, em vez de recuar, resolveu sair do armário e abraçar sua cor.

Cor-de-rosa

O problema é que juízes não devem ter cores, times, bandeiras. O básico da função é ser imparcial. Mas quando o próprio presidente do TST diz algo como “nós, vermelhos”, ele está mostrando ao Brasil que parte dos magistrados torce para um lado.

Mais tarde, Vieira de Mello tentou voltar atrás. “Sem nenhum preconceito, eu sou cor-de-rosa, estou misturando o azul com o vermelho”, afirmou, confundindo a combinação cromática. Já era tarde.

Ex-presidentes do TST criticaram a declaração. O partido Novo protocolou uma reclamação disciplinar no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). E, dentro do tribunal, a ministra Maria Cristina Peduzzi mandou um recado: “Todos aqui atuam em nome da Justiça. Não devemos ser tutelados”.

A mulher do “Tio Patinhas”

Antes da “guerra das cores”, Luiz Philippe Vieira de Mello Filho protagonizou outro episódio controverso. Foi em 2023, quando era conselheiro do CNJ e recebeu em seu gabinete a amazonense Luciane Barbosa Farias — que se apresentou como representante de uma ONG de apoio a parentes de presos.

Luciane, no entanto, possui um currículo mais extenso: condenada por lavagem de dinheiro, associação para o tráfico e organização criminosa, ela é mulher de Clemilson dos Santos Farias, líder do Comando Vermelho no Amazonas. No meio policial da região Norte, o casal é conhecido como “Tio Patinhas” e “Dama do tráfico”.

A explicação oficial foi protocolar: a reunião “constava da agenda pública”. Depois, o próprio CNJ reconheceu que o encontro não havia sido realmente marcado — foi encaixado.

O episódio ganhou ainda mais repercussão porque Luciane também apareceu em “agendas” do Ministério da Justiça, então comandado por Flávio Dino. Ela foi recebida por auxiliares da pasta, tirou fotos no prédio e causou constrangimento no recém-iniciado governo petista.

Os filhos do chefe

Há ainda um terceiro caso nebuloso na trajetória de Vieira de Mello Filho, porém bem menos conhecido que os anteriores.

Desde 2022, a Federação das Indústrias do Pará (Fiepa) vive uma briga interna pelo controle da entidade — e de um orçamento bilionário que inclui o Sesi e o Senai regionais. Em 2024, a Justiça do Trabalho havia anulado a eleição do presidente da federação e instalado uma junta provisória para administrá-la enquanto o conflito não era resolvido.

Vieira de Mello entrou nessa história como corregedor, o fiscal da magistratura trabalhista. Num primeiro momento, ele validou essa solução temporária e disse que o assunto deveria seguir no próprio tribunal regional. Até aí, sem polêmica.

Mas, depois disso, o caso ganhou contornos delicados: a parte derrotada trocou de advogados, e os novos representantes eram os filhos de Aloysio Corrêa da Veiga, à época presidente do TST (e, portanto, chefe direto de Vieira de Mello).

Em menos de 40 dias, Vieira de Mello mudou completamente de posição. Derrubou a junta, afastou um desembargador que atuava no processo e devolveu o comando da Fiepa justamente ao grupo contestado.

A reviravolta levou o caso até o STF, que pediu explicações sobre a mudança brusca de entendimento. Para completar, o corregedor viajou a Belém, sem agenda oficial, ao custo de R$ 17,4 mil aos cofres públicos.

Vieira de Mello disse ao Supremo que o desembargador afastado havia agido de forma irregular. A viagem não agendada, ele justificou, foi necessária para ouvir os envolvidos.

O que o juiz não explicou, e o TST preferiu não comentar, foi a “coincidência” difícil ignorar.

Três gerações

Em certas carreiras, o sobrenome realmente pesa. E, no caso de Vieira de Mello, ele atravessa gerações.

Seu pai, Luiz Philippe Vieira de Mello, entrou para a magistratura trabalhista em 1946. Décadas depois, encerrou a trajetória como ministro do Tribunal Superior do Trabalho.

O irmão, Caio Vieira de Mello, seguiu o mesmo caminho: foi desembargador, vice-presidente do TRT de Minas Gerais e ministro do Trabalho no governo Temer (hoje atua como advogado trabalhista, numa área diretamente ligada ao TST).

Há ainda uma irmã servidora concursada do tribunal. E, recentemente, o neto mais velho da família também ingressou na magistratura trabalhista mineira. São três linhagens com o mesmo sobrenome — e que atuam no mesmo circuito.

Momento de descontrole

As posições do presidente do TST são preocupantes para boa parte do empresariado. Sobre a reforma trabalhista de 2017, ele afirmou: “Essa lei escraviza. Ela torna os trabalhadores brasileiros reféns do capita”.

Segundo Vieira de Mello, quem defende a modernização da legislação pratica “terraplanismo jurídico”. Já a chamada “pejotização”, para o ministro, “é uma fraude, é mascarar o que está acontecendo na realidade”.

“Nós não temos uma Constituição liberal [no sentido econômico]. Nós temos uma Constituição democrática social. Queiram ou não queiram”, afirma — como quem não está muito aberto ao debate.

O presidente, por sinal, também protagonizou um episódio de descontrole. Em uma reunião reservada no TST, em março, ele tentou emplacar por unanimidade dois nomes de sua preferência para o CNJ. Mas, diante da resistência de colegas, exaltou-se.

Segundo relatos, Vieira de Mello subiu o tom, fez ameaças veladas e precisou ser contido por outros ministros. Depois, o magistrado admitiu ter sido “duro e incisivo”, porém negou ter gritado — disse que o microfone ligado fez sua voz soar mais alta.

A crítica e o contracheque

Por outro lado, Luiz Philippe Vieira de Mello Filho costuma fazer críticas públicas aos excessos da própria magistratura. Principalmente no que diz respeito à remuneração.

O ministro é a favor do fim dos “penduricalhos” e defende que juízes não devem receber valores extras por atividades que já fazem parte do cargo. Também questionou colegas que recebem para dar palestras a advogados, alegando que essa prática compromete a credibilidade do Judiciário.

São posicionamentos que, em tese, indicam uma sobriedade. Mas é impossível deixar de lado a informação de que, no fim de março, ele mesmo recebeu R$ 144 mil no contracheque. Num sistema como esse, criticar abusos não é exatamente um diferencial — é, no mínimo, uma obrigação.

A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato com a assessoria do TST para solicitar uma entrevista com Vieira de Mello. O pedido foi encaminhado à equipe responsável, mas não houve retorno até a conclusão deste texto.

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noticia por : Gazeta do Povo

quinta-feira, 7, maio , 2026 08:08
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