No país do futebol, tudo vira política

A convocação de Neymar foi um leve suspiro na campanha de Flávio Bolsonaro (PL). Com uma crise desencadeada pela revelação de áudios em que o pré-candidato à Presidência aparece solicitando dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiamento do filme que conta a história de Bolsonaro, qualquer tema que servisse para tentar desviar o foco seria de grande ajuda. Pouco tempo depois de o nome de Neymar ser anunciado por Ancelotti, Flávio fez uma postagem junto com o craque. Além dele, Eduardo Bolsonaro postou um vídeo no X insinuando que a convocação de Neymar é uma derrota para Lula, tentando levar o tema para uma disputa eleitoral com as frases “A alegria venceu a perseguição… Em outubro acontecerá de novo”. Já o PL divulgou um vídeo afirmando que “Flávio é Neymar e Neymar é Flávio”.

No entanto, o alívio na campanha durou pouco. Na manhã de ontem (19), após uma reunião com membros do PL, Flávio deu uma coletiva de imprensa afirmando que voltou a se encontrar com Vorcaro após ele já ter sido preso e usar tornozeleira, argumentando que o encontro se deu para que os dois rompessem relações. No entanto, serviu apenas para alimentar ainda mais a crise. Das mensagens que entraram na plataforma da Palver sobre Flávio, desde a entrevista coletiva, quase 70% são negativas.

Voltando ao futebol, as mensagens contrárias à convocação de Neymar não falam de política em primeiro lugar, mas questionam a condição física do jogador, falam em “lobby”, em atleta “encostado” e lamentam ausências como a de João Pedro, do Chelsea. Já a leitura política à esquerda, em cerca de três de cada dez mensagens politizadas, opera de outro modo e, em vez de atacar a convocação, usa a imagem de Neymar para lembrar a crise que cerca Flávio Bolsonaro, denunciando a tentativa de desviar o foco.

A esquerda enfrenta o dilema de criticar um ídolo nacional e popular. Além disso, torcer com ressalvas cria uma espécie de antagonismo diante de um sentimento patriótico que é exaltado pela Copa do Mundo. A direita, por ora, joga em campo mais confortável, pois surfa uma onda de entusiasmo e cujo protagonista é abertamente um aliado.

A disputa em torno da camisa 10 é mais um episódio da campanha eleitoral que se avizinha e dentro de um contexto polarizado, em que há uma tentativa de captura política em qualquer discussão que esteja nos holofotes. O que os brasileiros querem mesmo é ver o Brasil trazer o hexa e celebrar mais uma Copa do Mundo. Quem entender que o eleitor, antes de tudo, é torcedor, talvez leve vantagem na disputa política que ganhará a cena pra valer logo após o término da Copa.

noticia por : UOL

quarta-feira, 20, maio , 2026 08:50
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