Influenciadores certificados de finanças ganham primeiro ranking; veja lista

A crescente influência de criadores de conteúdo nas decisões de investimento dos brasileiros levou a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) a formular, pela primeira vez, um ranking dos apelidados “finfluencers” com qualificação técnica formal.

Divulgada nesta segunda-feira (1º) em parceria com o Ibpad (Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados), a 10ª edição do levantamento Finfluence mapeia os dez principais influenciadores com certificações da Anbima e os dez principais com o certificado CFP (Certified Financial Planner), referência internacional e no Brasil concedido pela Planejar.

Há ainda o ranking geral de criadores, sem o filtro de certificação formal —neste, apenas um tem credenciais reconhecidas pelo mercado.

No ranking geral, lideram os influenciadores Bruno Perini, dono do site Você Mais Rico, Charles Mendlowicz, conhecido como “Economista Sincero”, e Ricardo Amorim, ex-apresentador do programa Manhattan Connection da GloboNews.

Entre os certificados da Anbima, os sócios da Suno, Tiago Reis e Felipe Tadewald, ocupam a primeira e a segunda posição, respectivamente, seguidos por Roberto Guedes, dono do curso “Viver de Rendimentos”.

No ranking da Planejar lidera Renato Breia, sócio-fundador da Nord Investimentos, seguido pelos gestores de patrimônio Ramiro Gomes Ferreira e Daniel Carraretto.

Foram monitorados 904 influenciadores. A posição de cada um foi definida com base em critérios quantitativos e qualitativos a partir de perfis no Instagram, no Facebook, no YouTube e no X (antigo Twitter).

As métricas levadas em conta foram: popularidade, medida pelo número médio de seguidores; engajamento médio; frequência de postagens; domínio sobre os assuntos abordados; e capacidade de criar conexões com o mercado, o público e outros influenciadores.

No âmbito qualitativo, pesaram reputação e aderência às boas práticas, como conformidade com normas sobre divulgação de produtos, promessas de enriquecimento rápido, discursos de ódio e vínculos com jogos de azar. Segundo a Anbima, três influenciadores foram retirados das listas por disseminarem comentários misóginos durante o período analisado, de 1º de julho a 31 de dezembro de 2025.

A proposta, de acordo com a entidade, é dar mais visibilidade a profissionais com capacitação técnica e ampliar a transparência sobre quem produz conteúdo de finanças, ainda que a certificação não seja garantia absoluta de qualidade e ética.

O ranking vem em um momento de transformação na forma como os brasileiros se informam sobre investimentos. Também segundo a Anbima, desta vez na 9ª edição do Raio-X do Investidor, o canal preferido de 35% dos investidores tem sido o YouTube, seguido por Instagram (27%), TV (21%), buscadores (20%) e portais e sites (15%).

Os finfluencers deixaram de ocupar um espaço periférico para se tornar agentes que influenciam, de fato, a composição de carteiras. Ao mesmo tempo, aumentaram preocupações sobre conflitos de interesse, publicidade disfarçada e promessas de ganhos rápidos.

Segundo Amanda Brum, executiva da Anbima, a intenção é ampliar a transparência sobre quem produz conteúdo e “prestar um serviço para o investidor que quer seguir influenciadores com qualificação formal”.

A publicação da lista também vem em meio ao debate sobre regulação das redes sociais. Tramitam no Congresso Nacional propostas que querem apertar o cerco sobre as postagens veiculadas na internet e sobre quem as produz. Uma das principais é o projeto de lei 5.990/2025, que quer proibir influenciadores de publicar conteúdos sobre temas que demandam conhecimento especializado, como finanças e saúde, sem as devidas credenciais.

Isso porque, ainda que a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) tenha regulamentado a atuação de assessores de investimentos no mercado formal, os finfluencers ficam de fora do guarda-chuva. A entidade abriu uma consulta pública sobre o assunto em 2023 e prevê uma nova rodada na agenda regulatória de 2026 para avaliar o regramento a ser seguido.

O movimento acendeu um alerta para criadores sem certificados. Exemplo disso é Roberto Guedes, número 3 no ranking da Anbima, que buscou o CEA (Certificado de Especialista em Investimentos) em 2025 após nove anos produzindo conteúdo no Instagram.

Formado em administração de empresas e pós-graduado em finanças, o influenciador afirma que foi atrás da certificação para ter mais credibilidade. “O mercado é exigente e tirei o certificado também para ficar ‘legalizado’, ainda que já detivesse conhecimento sobre os produtos. Se médicos precisam de CRM para atuar, nós também precisamos das credenciais para recomendar investimentos”, disse em entrevista.

Na prática, segundo Yasmin Curzi, professora da FGV Direito Rio, a iniciativa é uma espécie de autorregulação do mercado, considerando que os processos nos órgãos públicos são mais lentos do que a velocidade da internet. “É uma autorregulação que vem também em um momento de saturação do público com essa economia de criadores, que muitas vezes agem apenas pelo próprio interesse e colocam os seguidores em risco”, afirma.

A preferência do público por finfluencers na hora de tomar decisões de investimento também tem um recorte de educação financeira, que ainda engatinha no Brasil. Ao traduzir conceitos complexos do mercado em uma linguagem acessível, os influenciadores abrem a porta para um tema árido para o público.

“Costumo falar que tenho dois motivos para falar difícil: eu era gerente de banco e tenho formação de advogada. Eu poderia falar o economês e o juridiquês, mas, na internet, eu falo a mesma língua de quem está ali escutando, e a mensagem chega justamente aonde não chegava antes”, afirma Elisiane Moreira, influenciadora no 5º lugar do ranking.

Renato Breia, sócio-fundador da Nord Investimentos e líder da lista da Planejar, cita o efeito das redes sociais no endividamento dos brasileiros. “Um influenciador pode impactar a vida de milhões de pessoas. Veja o que aconteceu com o jogo do tigrinho [Fortune Tiger] e com a disseminação das bets. Estamos falando de educação financeira nesse contexto, e ter credenciais técnicas é importante para colocar uma régua mais alta sobre quem fala de dinheiro nas redes”, afirma.

Ainda assim, mesmo conteúdos de influenciadores certificados devem ser vistos com cautela. Amanda Brum, da Anbima, reforça que as certificações não são sinônimo de ética e que, quando o assunto é investimento, o público deve ter parcimônia ao acatar ou não uma recomendação.

“A primeira coisa é ver se tem alguma qualificação: se não for certificado, verificar se é um economista, se tem pós-graduação em finanças, se é professor. Isso é primordial. E a segunda é: esse influenciador, mesmo credenciado, está propondo algo muito milagroso? Se sim, vale a máxima: se a promessa é grande, o santo desconfia. Investimento é consistência, não é ganho rápido.”

noticia por : UOL

segunda-feira, 1, junho , 2026 11:40
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