O Vale do Silício sabe que colocou instrumentos de destruição em massa nas mãos de grupos terroristas islâmicos? A pergunta, que até poucos anos atrás soaria como ficção científica, encontra hoje uma resposta documentada em uma pesquisa conduzida pela Universidade de Cambridge. O estudo relata como a inteligência artificial deixou de ser, para certas organizações jihadistas, um simples megafone de propaganda para se transformar em um verdadeiro assistente capaz de organizar atentados, ensinar técnicas de combate e construir bombas.
Entre 2022 e 2025, Antonia Juelich, especialista em terrorismo e novas tecnologias, conduziu para o Cambridge Programme on AI Science & Policy — do qual é responsável — 57 entrevistas, cada uma com uma hora e meia de duração, com 27 ex-membros do Boko Haram, grupo jihadista do norte da Nigéria. O resultado foi um relatório de 93 páginas — o primeiro estudo do gênero —, publicado há poucos dias, que traz um quadro muito mais inquietante do que as análises anteriores deixavam supor sobre o uso da inteligência artificial pelo terrorismo islâmico.
Os entrevistados, em sua maioria ex-comandantes ou “especialistas técnicos”, demonstraram conhecer bem os seis principais provedores de IA disponíveis no mercado e saber como utilizá-los para suporte bélico, planejamento tático, segurança operacional e revisão pós-missão.
A reviravolta ocorreu entre 2023 e 2025, quando o Estado Islâmico — tido por muitos como enfraquecido, se não extinto — revelou ter construído uma rede inteira de instrutores especializados em inteligência artificial, ativos entre seus seguidores na Nigéria e em Camarões. O relatório destaca que os jihadistas não aprenderam a usar a IA de forma autônoma, mas foram treinados. Homens da Líbia, França e Iraque, descritos pelos ex-militantes simplesmente como “brancos que vieram nos treinar”, organizaram visitas ao Estado de Borno, no nordeste da Nigéria, com grupos que contavam com até vinte instrutores — alguns especializados em drones e artefatos explosivos, outros inteiramente dedicados à IA. “Também havia muitos árabes vindos do Afeganistão e do Iraque que nos deram treinamento. Essa é a razão principal pela qual fizemos progresso”, relata um dos entrevistados. E foi justamente após essas sessões de formação que um novo mantra começou a circular entre as fileiras do Boko Haram: “Alá nos ajudou, e a IA também ajudará”.
A organização terrorista islâmica preocupou-se, ainda, em se coordenar no plano logístico, evitando deixar rastros que pudessem ser vinculados a ela. “Temos pessoas em diferentes localidades que criam contas que não podem ser rastreadas até nós. São elas que pagam as assinaturas”, explicou um ex-estrategista do grupo. Trata-se, portanto, de uma rede de laranjas digitais. O acesso é estritamente controlado: os combatentes de patentes inferiores não podem utilizar as ferramentas diretamente. As perguntas são encaminhadas aos comandantes das unidades de inteligência artificial, que operam os sistemas e repassam as respostas aos níveis inferiores.
Esse mecanismo revela muito mais do que parece: a inteligência artificial não é uma arma ocasional nas mãos de algum militante mais esperto, mas uma engrenagem já incorporada à estrutura das facções — composta por homens, dispositivos, pagamentos e regras de acesso construídos ao seu redor. Uma capacidade, em suma, destinada a sobreviver muito além da competência de um único combatente. Quanto às unidades especializadas, o objetivo é oferecer suporte direto aos combatentes em campo por meio de câmeras corporais que transmitem as imagens dos atentados em tempo real.
Entre os episódios narrados no relatório, um em particular ilustra com gravidade a dimensão do fenômeno. Por anos, a Província do Estado Islâmico na África Ocidental tentou atacar uma base militar no leste da Nigéria, mas esbarrava em um grande fosso que cercava o complexo. A solução veio da inteligência artificial: após receber as características das motocicletas e a distância a ser percorrida, o assistente forneceu instruções precisas sobre os passos a seguir. Os testes práticos, contudo, custaram caro: dezoito militantes morreram tentando o salto antes que outros oito tivessem sucesso. “Gostamos especialmente de assistir a documentários de guerra norte-americanos, como os sobre o Afeganistão, para buscar inspiração e aprender novas táticas”, aponta o estudo de Cambridge.
É curiosa a relação dos jihadistas com o imaginário ocidental: se o entretenimento permanece haram (algo proibido pelo Islã), os filmes de guerra escapam da proibição e se tornam, junto a vídeos de outras insurreições islâmicas, uma fonte real de inspiração tática. O aporte da IA “nos ensinou estratégias de guerrilha, a coordenar melhor os atentados e a destravar armas estrangeiras”, contou outro ex-militante. Uma mudança organizacional mínima no papel, mas capaz — segundo as fontes — de reduzir sensivelmente as perdas nas fases mais perigosas dos confrontos e de alterar seus resultados.
Questionado sobre os resultados do estudo, Michael Aciman, porta-voz da Anthropic — uma das empresas norte-americanas de inteligência artificial —, declarou ao The New York Times que os chatbots da empresa são “projetados para recusar solicitações perigosas, incluindo aquelas relativas à violência, ao planejamento de ataques e à fabricação de explosivos”.
O estudo de Antonia Juelich, no entanto, mostra uma realidade bem diferente. Ele é respaldado, inclusive, por uma investigação conduzida pela ONG Tech Against Terrorism, apoiada pela Organização das Nações Unidas, que submeteu mais de 2.300 solicitações — baseadas em “casos reais de uso por terroristas” — a 27 modelos diferentes de inteligência artificial. O resultado: 32% dos pedidos geraram informações realmente utilizáveis. Quando a mesma pergunta era reformulada especificando uma finalidade de pesquisa, o percentual subia para 42%. Tudo concorre para demonstrar que a adoção da inteligência artificial por grupos terroristas foi subestimada de forma significativa, tanto em alcance quanto em natureza. “É hora de parar de considerá-la um risco hipotético para o futuro e começar a vê-la como uma ameaça atual e crescente para a segurança nacional”, conclui o estudo de Juelich.
Não se trata, afinal, de um fenômeno isolado: a Jamā’at Ahl as-Sunnah lid-Da’wah wa’l-Jihād, facção hoje rival do Boko Haram e ligada ao Estado Islâmico, também está recebendo treinamento semelhante. Para governos e agências de segurança, a tarefa que se apresenta não é mais teórica. O número de grupos que receberão esse tipo de instrução é potencialmente infinito, assim como as consequências que podem advir da disponibilidade de modelos cada vez mais sofisticados nas mãos de organizações que, como demonstra este relatório, já aprenderam a usá-los com precisão.
© 2026 La Nuova Bussola Quotidiana. Publicado com permissão. Original em italiano:Il jihad colpisce con l’IA, lo rivela uno studio di Cambridge.
noticia por : Gazeta do Povo


