A esquerda brasileira se acostumou a reivindicar para si o posto de principal defensora dos direitos humanos, das minorias e das chamadas pautas identitárias. É um discurso repetido à exaustão: quando o assunto é população LGBT, a esquerda se apresenta como a força política encarregada de proteger direitos, ampliar garantias e combater qualquer forma de discriminação.
Mas há uma curiosa mudança de tom justamente no programa eleitoral de um dos nomes mais importantes da própria esquerda brasileira. Em 2022, ao tentar voltar à Presidência após um período preso, Luiz Inácio Lula da Silva dedicou um trecho específico de seu programa à população LGBT. Agora, esse grupo até aparece na sua nova lista de promessas, mas a agenda perdeu força e foi bastante esvaziada, o que gerou críticas internas no movimento.
Sites da esquerda e ligados ao LGBT notaram essa guinada de direção. A Agência Diadorim, formada por jornalistas focados nesse público, identificou a mudança nos programas de governo do candidato petista e reconheceu que o que antes era uma prioridade agora não passa de mais uma entre tantas promessas.
Foi assim também com o site Observatório G, portal de notícias voltado para a comunidade LGBT brasileira. Em um texto sobre o programa de governo de Lula, o autor reclama da falta de citações específicas e aponta que a sigla da comunidade aparece apenas em poucos pontos do documento e “de forma generalizada”.
Outra a criticar a postura do petista foi Cláudia Armbrust, militante dos direitos LGBT e membro da diretoria da ONG Minha Criança Trans. Ela classificou a mudança no programa de Lula como lamentável. “Quando não traz o assunto de forma explicita, acaba invisibilizando ou escondendo. Me parece que tratar de políticas públicas LGBT num país de fundamentalistas religiosos ainda é tabu! Continuamos nas sombras e sem orçamentos”, escreveu, no Instagram.
O motivo das críticas dos ativistas é que em vez de um conjunto próprio de compromissos, a questão de identidade de gênero agora aparece diluída no programa petista em outras políticas mais genéricas. A mudança é curiosa porque não ocorreu em uma candidatura ligada à direita ou mesmo ao centrão: veio justamente com Lula, um dos mais representativos líderes da esquerda latino-americana.
Compromissos específicos desapareceram entre uma eleição e outra
Uma análise dos programas de governo das campanhas de 2022 e 2026 permite constatar algo notável: promessas que estavam presentes há quatro anos em 2022 foram retiradas ou escondidas agora.
No programa de 2022, Lula afirmava que não haveria “democracia plena” enquanto pessoas fossem agredidas ou mortas por causa de sua orientação sexual. Em seguida, o documento prometia políticas de combate à discriminação e respeito à cidadania LGBT e especificava quatro frentes de atuação: saúde, educação, trabalho e identidade de gênero.
Na saúde, a promessa era garantir o direito à “saúde integral” da população LGBT. Na educação, o programa falava em inclusão e permanência. No mercado de trabalho, também previa inclusão e permanência. E, em uma formulação particularmente explícita, o documento de 2022 dizia que o governo reconheceria “o direito das identidades de gênero e suas expressões”.
A população LGBT aparecia ainda em outro ponto do programa de 2022: no capítulo dedicado à segurança pública. O texto determinava que as políticas nacionais deveriam priorizar a prevenção, a investigação e o processamento de crimes e violências contra mulheres, jovens negros e a população LGBT.
Em 2026, a situação é diferente. A sigla do movimento aparece apenas quatro vezes no programa de governo. Uma delas está justamente na formulação transversal: o texto diz que as políticas e ações do Estado deverão levar em conta dimensões como gênero, identidade, orientação sexual, questões étnico-raciais e classe social, para que a administração pública consiga atender de maneira adequada e inclusiva às especificidades da população LGBT.
Outra menção surge na apresentação geral do projeto de governo. O documento afirma defender um Brasil que combata todas as formas de discriminação e assegure os direitos de diversos grupos, entre eles a população LGBT. A diferença mais importante não está no que aparece, mas no que deixou de ser dito.
População LBGT desapareceu das promessas de Saúde e Educação
No capítulo de saúde do programa de 2026, não há uma promessa equivalente à de 2022 de garantir especificamente a “saúde integral” da população LGBT. O documento apresenta uma longa lista de medidas para o SUS, mas não reproduz aquele compromisso específico.
O mesmo ocorre com a educação. Em 2022, a promessa de inclusão e permanência da população LGBT no sistema educacional estava expressamente escrita no programa. Em 2026, a formulação desaparece como compromisso específico. O novo documento fala amplamente em educação inclusiva e em redução de desigualdades, mas a questão LGBT aparece mais diluída, como apenas mais uma das dimensões que devem ser consideradas no planejamento das políticas públicas.
Também desapareceu a formulação específica sobre o reconhecimento do direito às identidades de gênero e suas expressões. O novo programa continua utilizando os conceitos de gênero, identidade e orientação sexual, mas os apresenta apenas como variáveis que devem ser consideradas pelo Estado, e não como uma promessa política específica equivalente àquela feita há quatro anos.
Promessas para o mercado de trabalho também mudaram de formato
O tema “mercado de trabalho” continua presente, mas mudou de formato. Em 2022, Lula prometia inclusão e permanência da população LGBT no mercado de trabalho. Em 2026, o programa afirma que o governo continuará combatendo a discriminação de gênero no acesso ao trabalho.
É uma mudança pequena na extensão do texto, mas relevante na natureza da promessa: antes, a ênfase estava em criar condições de inclusão e permanência; agora, está no combate genérico à discriminação.
O novo programa também propõe uma política de regulação das redes sociais e plataformas digitais e uma Política Nacional de Letramento Digital. A primeira pretende combater desinformação e campanhas de ódio; a segunda busca capacitar os cidadãos para navegar criticamente na internet e proteger sua privacidade. Mas o próprio programa não apresenta essas duas medidas como políticas exclusivamente destinadas à população LGBT.
Assim, a comparação entre os dois programas revela uma espécie de troca de foco. Em 2022, Lula apresentava uma agenda mais setorial: saúde integral, inclusão educacional, inclusão no mercado de trabalho e reconhecimento das identidades de gênero. Em 2026, o discurso é mais genérico: combate à discriminação, consideração de gênero e orientação sexual nas políticas públicas, proteção contra violência e crimes de ódio e combate à discriminação no trabalho.
noticia por : Gazeta do Povo


