Tento não mentir, mas adoro manipular meus leitores, diz Freida McFadden à Folha

Freida McFadden tenta não começar a escrever um livro antes de encontrar uma grande reviravolta para a trama. Autora de thrillers que já venderam mais de 36 milhões de exemplares pelo mundo, ela diz que a matemática influencia diretamente na maneira como constrói suas histórias.

“Criar a trama de um bom thriller é como resolver um quebra-cabeça de trás para a frente”, afirma a autora, normalmente reclusa, em entrevista à Folha. “Eu tento não começar a escrever até ter uma grande reviravolta em mente, mas, se sinto que não está funcionando, estou sempre disposta a mudar de direção.”

Foi com esse método que McFadden chegou ao sucesso de “A Empregada”, de 2022, livro que transformou uma autora que já publicava havia quase uma década num dos maiores nomes do suspense comercial.

Sua adaptação em filme, estrelada por Sydney Sweeney e Amanda Seyfried, arrecadou US$ 400 milhões nas bilheterias mundiais, ou cerca de R$ 2 bilhões, mais de 11 vezes seu orçamento de produção.

Hoje, o livro de McFadden que frequenta as listas de mais vendidos no Brasil é “Nunca Minta”, editado pela Record, responsável por publicar quase toda sua obra por aqui.

Desde que se autopublicou pela primeira vez na Amazon, em 2013, McFadden lançou 33 títulos —média superior a dois livros por ano. Antes disso, sofreu para conseguir um agente e uma editora.

Passou quase nove anos lançando de forma independente, até que, em 2022, a britânica Bookouture comprou os direitos de “A Empregada. No ano seguinte, chegou à Sourcebooks, uma das maiores editoras dos Estados Unidos, com que assinou um contrato de sete livros e passou também a reeditar parte de seu catálogo anterior.

No centro desses romances estão as informações que McFadden decide dar ou esconder do leitor. “O melhor narrador não confiável é aquele que omite fatos, mas não chega a mentir para o leitor”, diz. “Eu tento não mentir, mas adoro manipular os leitores e suas expectativas.”

A simplicidade de sua escrita também é deliberada. McFadden diz cortar descrições ou cenas quando acha que elas diminuem o ritmo. “Não quero que haja um momento em que o leitor fique entediado.”

Essa fórmula também alimenta as ressalvas da crítica. Seus romances são construídos com capítulos curtos, ganchos e reviravoltas sucessivas, num estilo já comparado ao do best-seller americano James Patterson e descrito como “popcorn fiction”, ou ficção pipoca.

A própria autora já disse que não pretende escrever nada como “Guerra e Paz”. “Meu objetivo é escrever livros superenvolventes que os leitores consigam terminar em um ou dois dias. Mais da metade das pessoas não lê livros, e eu gostaria de mudar isso”, afirma.

“Recebo com frequência mensagens de leitores dizendo que não liam um livro havia anos, mas que meus livros os fizeram voltar a ler. Adoro ouvir isso. Sempre digo que um livro não pode ser tudo. Eu escolhi o meu caminho.”

A carreira de McFadden começou longe do tipo de thriller doméstico que a tornou conhecida. Seus primeiros livros se aproximavam de seu universo profissional —a autora, cujo nome verdadeiro é Sara Cohen, é uma médica especializada em reabilitação e neurocirurgia.

Em “The Devil Wears Scrubs”, ou “o Diabo usa avental cirúrgico”, de 2013, a protagonista é uma jovem médica. “Brain Damage”, de dez anos atrás, acompanha uma mulher em recuperação de uma lesão cerebral. Ambos ainda são inéditos por aqui.

Décadas antes, outro médico construiu uma carreira de best-seller transformando hospitais e procedimentos médicos em matéria para thrillers. Questionada se conhece Robin Cook, autor de livros como “Coma” e “Cérebro”, McFadden revelou ser uma influência antiga. “Fui uma grande fã quando adolescente”, afirma. “Tive a sorte de o conhecer recentemente e agora telefonamos um para o outro de vez em quando.”

O conhecimento médico, diz ela, facilita, mas não elimina a pesquisa. “Não preciso pesquisar no Google tanto quanto uma pessoa comum. Sinto mais segurança ao escrever sobre ferimentos e doenças, mas certamente não sei tudo sobre isso.”

O saber profissional tampouco restringe as liberdades que toma para fazer uma trama funcionar. “Nunca”, responde quando perguntada se já havia abandonado uma boa reviravolta por saber, como médica, que ela seria clinicamente impossível.

“Na verdade, por ter formação médica, sinto mais confiança para tomar liberdades poéticas, porque acho que consigo contornar melhor a realidade do que alguém sem esse conhecimento.”

Foi só cinco meses atrás que o público soube que a médica por trás de Freida McFadden se chamava Sara Cohen. Durante anos, ela protegeu sua identidade civil, embora seu rosto não fosse propriamente secreto. Havia fotografias dela em eventos, sempre vestindo perucas. McFadden diz que não tinha concebido disfarces: usava porque não sabia o que fazer com o próprio cabelo.

A revelação pública de seu nome, porém, não significa uma abertura completa de sua vida pessoal. McFadden aceitou responder por email a 14 perguntas do repórter, mas deixou sem resposta as quatro primeiras, todas relacionadas à separação entre Cohen e sua persona de escritora.

Entre elas estava uma questão sobre um registro de março de 2002 encontrado pela reportagem nos arquivos da Universidade de Stony Brook, no estado americano de Nova York, onde Cohen estudava medicina.

O boletim oficial da instituição registra os vencedores do quarto concurso de escrita do Institute for Medicine in Contemporary Society. O primeiro prêmio em prosa foi dado a “Sara Ilene Cohen, estudante do primeiro ano de medicina”.

O repórter perguntou o que ela havia escrito e que tipo de escritora imaginava se tornar aos 21 anos. McFadden não respondeu —tampouco disse se já descobriu o que fazer com os cabelos.

Quase uma década separaria aquela premiação do lançamento de seu primeiro romance. E seriam necessários quase outros dez anos até “A Empregada”.

Nem McFadden consegue dizer por que foi esse livro que ultrapassou todos os anteriores. “Acho que a maioria dos artistas tem dificuldade para entender por que seu ‘maior sucesso’ é justamente aquele que repercute com todo mundo”, afirma. “Se soubéssemos, faríamos isso o tempo todo.”

Havia, no entanto, uma carreira em ascensão por trás do que pode parecer um sucesso repentino. “Antes de ‘A Empregada’, cada livro estava se tornando sucessivamente mais popular, e eu vinha trabalhando duro para construir meu público.”

Quando o romance foi lançado, outro livro seu, “A Sete Chaves”, estava entre os primeiros lugares da Amazon e, segundo ela, ajudou a conduzir leitores ao novo título. O cinema ampliou ainda mais esse público.

McFadden diz ter gostado da adaptação de “A Empregada”, dirigida por Paul Feig, que muda o desfecho do romance. “O final que fizeram funcionou melhor na tela”, diz. “Não poderia estar mais satisfeita.”

A escritora agora enfrenta outro problema provocado pelo tamanho de seu catálogo, como continuar produzindo novas reviravoltas sem se repetir. “Penso nisso com frequência”, diz. “Tenho tentado pensar muito fora da caixa para não me repetir.”

No Brasil, além de “A Empregada”, publicado pela editora Arqueiro, a Record publicou thrillers como “Nunca Minta”, “A Contadora”, “A Professora”, “O Acidente”, A Intrusa” e “A Inquilina” e “Ala D”.

Seu próximo movimento é “The Witch”, ou “a bruxa”, que a autora define como sua primeira incursão pelo thriller histórico, com lançamento previsto para outubro nos Estados Unidos.

A velocidade com que escreve poderia levantar uma questão inevitável na atualidade. Alguma parte desse processo passou a ser auxiliada por inteligência artificial? “Não uso de forma alguma”, responde. “E não acredito que autores devam usar [IA] em suas obras.”

noticia por : UOL

sexta-feira, 11, setembro , 2026 08:17
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